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“Se você não sabe onde quer ir, qualquer caminho serve.” – Lewis Carrol

O projeto AUTOMOTIVERESTART da Bright Consulting promoveu a análise dos efeitos da pandemia da Covid-19, convidando alguns dos maiores especialistas para escrever suas visões em artigos que vêm sendo publicados no site da empresa e estão acessíveis a todos os interessados. Os temas foram divididos em quatro partes, sendo que cada uma delas é encerrada por um debate virtual, no formato de webinar, em que outros analistas discutem seus pontos de vistas.

O primeiro Webinar, conduzido pela ABDI, encerrou a primeira fase do projeto, dedicada a estudar os efeitos da pandemia no negócio automotivo, acelerando ou criando tendências, desde o planejamento da produção às vendas de veículos leves.

O segundo Webinar consolidou o término da segunda etapa do projeto, dedicada à mobilidade sustentável dos veículos leves, com base no princípio de que o desenvolvimento sustentável prega o equilíbrio entre seus aspectos ambientais, sociais e econômicos. Os oito textos, escritos por reconhecidos especialistas nestes pilares, avaliaram os impactos das decisões a serem tomadas e das alternativas disponíveis no Brasil e no mundo para a mobilidade sustentável.

Como síntese, ficou claro que este assunto tem uma abrangência enorme, pois impacta a segurança energética, a independência tecnológica, a criação de empregos e o desenvolvimento da economia como um todo.

Não é por outra razão que o mundo inteiro se prepara para um novo arranjo da mobilidade que, além de possibilitar a retomada econômica, promove soluções para combater o aquecimento global, a próxima catástrofe mundial já anunciada, que já vem mostrando suas garras e que, apesar dos negacionistas de plantão, exige medidas com efeitos imediatos para “achatar a curva” de forma muito similar ao que foi feito no combate ao coronavírus. No entanto, os planos discutidos como o “Green Deal” europeu, as medidas da China e Japão e as propostas em debate nos Estados Unidos são sempre calcadas em vultuosos investimentos e incentivos dos governos, que estão totalmente fora da realidade brasileira e de vários outros países no mundo.

Daí a pergunta que orientou o debate: “Como garantir que as novas tendências tecnológicas mundiais contribuam para a mobilidade sustentável no Brasil, cumprindo seu papel ambiental e minimizando tanto a dependência de investimentos do estado quanto a desindustrialização e o desemprego?”

O convidado Fernando Pfeiffer, Gerente de Produto da Renault, é defensor de que, assim como essas novas tecnologias já trouxeram benefícios à mobilidade atualmente – por exemplo, os sistemas de recuperação de energia da frenagem –, a rápida evolução das baterias e dos materiais fará com que os veículos elétricos já sejam competitivos no Brasil em 2025 e isso interessará a iniciativa privada em investir na infraestrutura de abastecimento. No entanto, esta nova realidade implicará em um novo modelo de negócios, como o car sharing, ou outras formas de comercialização e uso dos veículos, o que provocará uma grande transformação no setor.

Por sua vez, Edson Orikassa, Vice-Presidente da Associação de Engenharia Automotiva (AEA), mirou mais o momento de transição, que pega uma indústria totalmente combalida, que, apesar dos números melhores dos que os inicialmente previstos pela ANFAVE e em linha com as análises de mercado da Bright, ainda luta pela sobrevivência e veremos muitos planos de dispensa de funcionários nos próximos meses. Isso tende a atrasar ainda mais os desenvolvimentos para o cumprimento de legislações e lançamento de novos modelos. Apesar da AEA defender que as legislações precisam ser cumpridas, lembra que ainda existem definições técnicas pendentes, em discussão na própria AEA e outros fóruns, para que os veículos possam ser homologados, principalmente no que tange aos limites L7 e L8 do PROCONVE.

Do ponto de vista do aquecimento global, Edson Orikassa não vê que veículos elétricos sejam primordiais, chegando a comentar que os executivos japoneses, com quem tem contato frequente, não entendem porque o Brasil, que dispõe do etanol, combustível renovável de baixo carbono, amplamente utilizado e que não precisa de novos investimentos, se preocupa com veículos elétricos com baterias e que, por isso, a Toyota introduziu o primeiro Corola híbrido flex no mercado nacional.

O diretor da LACTEC, Lauro Elias, aproveitou o gancho das falas anteriores e usou a abordagem de termos a percepção de que vivemos, do ponto de vista tecnológico, um momento em que dois mundos – o da mobilidade elétrica e a dos biocombustíveis – estão se cruzando e que, por se tratarem de alternativas com diferentes atributos, fica muito difícil a análise dos melhores caminhos. É necessário que se estabeleça primeiro um propósito – qual é o objetivo a ser alcançado – para depois pensar na melhor composição das alternativas, lembrando ainda de uma terceira, o hidrogênio, que se apresenta como um vetor importante de armazenamento da energia elétrica de fontes renováveis como a solar e eólica. Lauro acredita que existe espaço para veículos elétricos em aplicações definidas, frotas urbanas ou corredores de ônibus, por exemplo, e que os estudos realizados pela LACTEC avançam em analisar as tecnologias que precisarão ser desenvolvidas localmente e que, junto com um plano de infraestrutura, poderão combinar esses dois mundos de forma mais interessante para o país, gerando oportunidades de empregos e avanço da engenharia local.

O Presidente da UNICA, associação dos fabricantes de açúcar e álcool, Evandro Gussi, de forma contundente, começou ponderando a necessidade de que a definição do propósito, tão necessário para traçar a rota da mobilidade, parta de um debate honesto do que se pretende: o que está em jogo. Se trata da sobrevivência da indústria, reduzindo investimentos pela adoção de soluções desenvolvidas para outros mercados e atrasando a entrada em vigor das legislações locais ou do controle das emissões dos gases de efeito estufa da forma mais eficiente. Ele defende que é necessário transparência neste aspecto e que isso só será possível avaliando-se as emissões de todo o ciclo de vida dos veículos, coisa que as legislações atuais não fazem por se concentrarem nas emissões do escapamento, o que as tornam no único objetivo dos fabricantes de veículos.

Evandro chamou a atenção de que, mesmo respaldado pela legislação, esse posicionamento resvala para um dolo eventual, pois governo, academia e iniciativa privada, detentores do conhecimento do efeito ambiental e econômico global das alternativas da mobilidade sustentável, não podem deixar essa decisão na mão do comprador do veículo, vulgo “o mercado”, mesmo porque ele não é o único impactado pelo aquecimento global.

Na etapa seguinte do debate, os participantes comentaram os posicionamentos de todos e, por falta de tempo, já incluiu as conclusões, ficando claro que já passou da hora de se definir o norte e as rotas a serem seguidas na evolução da mobilidade, combinando vários modais, e que uma coordenação do governo é insubstituível para isso. A valorização do potencial local dos biocombustíveis, combinada com a eletrificação em diferentes níveis, produzindo localmente produtos e tecnologia que possam ser compartilhados com países que têm condições semelhantes ao Brasil, deve ser o marco inicial dessa construção. Cabe definir quem é o líder do processo dentro do governo.

Na terceira etapa do projeto AUTOMOTIVERESTART, a Bright Consulting continuará analisando e propondo caminhos para essa difícil, mas inevitável, tarefa, lembrando sempre que a tecnologia foi feita para servir as pessoas, e não ao contrário, e que se o Brasil não pode se isolar do mundo, é preciso procurar reduzir sua dependência e criar laços internacionais que considerem o retorno em alguns anos de um dos maiores mercados a serem explorados pela indústria da mobilidade, com enormes oportunidades e, principalmente, um dos líderes mundiais da preservação ambiental, peça chave da nova economia.

Ricardo Abreu
Bright Consulting

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